AgroETA — Tratamento de Água

Esterqueira cheia: o que fazer antes que ela transborde na chuva

13 de outubro de 2026 · Equipe Técnica AgroETA

Outubro chegou com a esterqueira mais cheia do que devia, e o tempo não vai ajudar. O boletim nº 4 do Painel El Niño, elaborado por Inmet, Inpe, ANA, Cemaden e outros órgãos federais em 30 de setembro, dá 95% de chance de El Niño muito forte entre outubro e dezembro, com chuva acima do normal no Sul e risco de cheias que só deve diminuir em dezembro. Para quem está com a esterqueira cheia e não sabe o que fazer, isso é um prazo. Cada chuva forte entra pela borda, e o solo encharcado tira a única saída fácil que existia: aplicar na lavoura.

A gente vê esse aperto todo ano. O que muda em 2026 é que ele vai durar mais.

Por que a esterqueira enche mais rápido quando chove

Esterqueira aberta é uma caixa de captação de chuva. Numa de 20 metros de diâmetro, a borda superior tem pouco mais de 300 m². Cada 100 mm de chuva no mês viram 30 mil litros a mais lá dentro, sem um suíno sequer ter contribuído. Tanto que a Instrução Normativa 11 do IMA, de Santa Catarina, manda somar ao volume da esterqueira um “volume de segurança” calculado pelo balanço entre chuva e evaporação dos quatro meses mais críticos do ano. Se a esterqueira tem cobertura que impede a entrada da chuva, esse volume extra cai a zero.

Do outro lado, o campo não recebe. Aplicar dejeto em solo saturado não aduba nada: a água não infiltra, o dejeto escorre junto com a enxurrada e vai parar na sanga mais próxima. A própria norma exige que a aplicação use técnicas que minimizem perdas por escoamento superficial. Em chuva de El Niño, a técnica que minimiza é não aplicar.

Resultado: entra mais e sai menos. É a matemática que lota a esterqueira em outubro e novembro.

Afinal, esterqueira cheia: o que fazer?

Primeiro, saber quanto falta. A IN 11 exige uma borda livre mínima de 0,25 m entre o nível mais alto do dejeto e a borda superior da esterqueira ou lagoa. Meça hoje. Se a lâmina já está a menos de 25 cm da borda, você não tem reserva, tem contagem regressiva.

Depois, tirar dejeto de dentro por um caminho que a licença aceita. Em Santa Catarina, o item 4.5.4 da IN 11 lista as alternativas para quem não tem área própria suficiente: contrato de cessão de área com vizinhos, compostagem com exportação do excedente, sistema de tratamento que exporte nutrientes ou redução do plantel. Na prática, o que destrava no curto prazo é a primeira: encontrar um talhão de vizinho, firme e sem lençol aflorando, e levar o dejeto com distribuidor. O resto é solução de estrutura, e vem a seguir.

O que a norma permite e o que ela proíbe

A tabela abaixo resume as quatro saídas do item 4.5.4 da IN 11 do IMA/SC (versão abril/2025) e o que cada uma significa no dia a dia. Paraná e Rio Grande do Sul têm regras próprias (IAT e Fepam): confira os números com o responsável técnico da sua licença.

Alternativa prevista na IN 11 O que é na prática Prazo para funcionar
Contrato de cessão de área com propriedade vizinha Vizinho cede talhão licenciado; você aplica com distribuidor e registra no plano de adubação Dias a semanas
Transformar o dejeto líquido em composto estabilizado e exportar o excedente Separar o sólido, compostar e vender ou doar o composto para fora da propriedade Meses (precisa de estrutura)
Sistema de tratamento que reduza a carga e exporte nutrientes Separador de sólidos, biodigestor com destino para o digestato, ou ETA de dejetos Meses
Reduzir o plantel conforme a área disponível Alojar menos animais no próximo lote Um lote

E o que a norma não aceita, apesar de a gente ainda ver por aí: abrir a saída para a valeta “só nessa chuva”, aplicar em cima de solo encharcado ou perto de curso d’água, e cavar uma lagoa improvisada de terra sem impermeabilização ao lado da esterqueira. Esterqueira, lagoa e biodigestor precisam de fundo e taludes comprovadamente impermeáveis, em concreto, alvenaria ou geomembrana. Qualquer uma delas vira auto de infração.

Um ponto que confunde muita gente: biodigestor não esvazia esterqueira. O que entra como dejeto sai como digestato, em volume parecido, e a própria IN 11 exige uma lagoa de armazenamento de digestato com pelo menos 40 dias de retenção. Ele resolve odor, metano e energia, não falta de espaço. Explicamos as diferenças entre as rotas em esterqueira, biodigestor ou compostagem: qual o destino certo para os dejetos.

Cinco coisas para fazer nesta semana

  1. Meça a borda livre com uma régua ou trena na parede da esterqueira e anote. Repita depois de cada chuva. Menos de 25 cm é zona vermelha.
  2. Desvie a água limpa. Calha de telhado, canaleta de pátio e lavagem de baia que chegam à esterqueira são água tratada como dejeto. Cada metro cúbico desviado é um metro cúbico de folga.
  3. Cace vazamento no galpão. Bebedouro pingando e registro mal fechado vão parar na canaleta e, dali, na esterqueira.
  4. Converse com o vizinho antes de precisar. O contrato de cessão de área precisa de talhão com análise de solo e entrar no plano de aplicação da licença.
  5. Olhe a janela de tempo, não só o céu. Entre uma frente fria e outra costumam aparecer três ou quatro dias secos. É nessa janela que o distribuidor e o talhão têm de estar prontos.

Quando o problema é de projeto, não de manejo

Se a esterqueira lota todo ano na mesma época, o manejo não vai resolver. A IN 11 pede, para sistemas novos, no mínimo duas unidades em paralelo com alimentação alternada: enche uma, fecha e passa a encher a outra. Cada unidade segura o dejeto por pelo menos 40 dias depois de cheia, e o sistema todo não pode ter menos de 80 dias de capacidade. Se a granja aplica só duas vezes por ano, a capacidade tem de cobrir 180 dias de produção mais o volume de segurança da chuva. Esterqueiras feitas até 30/10/2014 ficam dispensadas de adequação se forem comprovadamente impermeáveis e tiverem pelo menos 120 dias de retenção.

Na nossa experiência, a maioria das esterqueiras que lotam foi dimensionada para o plantel, ou para a chuva, de dez anos atrás. Uma segunda unidade em geomembrana PEAD, com cobertura, costuma custar menos do que o produtor imagina. Veja como fazemos o dimensionamento pelo plantel e pela licença em esterqueira com geomembrana PEAD para dejetos de suínos.

Para exportar nutriente, o separador de sólidos para dejetos de suínos tira a fração sólida antes da esterqueira: ela vira composto que sai de caminhão, e o líquido fica mais leve para tratar.

O próximo passo

Hoje, antes de escurecer, meça a borda livre da sua esterqueira. Se o número for menor que 25 cm, a prioridade desta semana é contrato de cessão e distribuidor na janela seca. Se o número é bom hoje mas some toda primavera, a prioridade é projeto: segunda unidade, cobertura ou separador, dimensionados para a chuva que o Inmet está prevendo, não para a média histórica.

A AgroETA projeta e constrói esterqueiras, lagoas e sistemas de tratamento de dejetos há 27 anos, em 35 municípios de SP, PR, SC e RS. Para a conta da sua capacidade pelo plantel real e pela norma do seu estado, fale com a equipe técnica antes da próxima frente fria.

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